Ginecologia · Artigo
Menopausa: o que muda no corpo e o que avaliar na consulta ginecológica
A menopausa não é doença, mas mexe com o sono, o humor, os ossos, o coração e a vida sexual. Aqui estão o que muda, quais exames entram nessa fase, quando a terapia hormonal é uma opção e quando vale marcar a consulta.
Dra. Pollyane Almeida Lopes · Ginecologia e Obstetrícia · CRM MG 66466 · RQE 44581
Publicado em 6 de outubro de 2026 · Revisado pela Dra. Pollyane Lopes em 6 de outubro de 2026

O calor que sobe pelo pescoço no meio de uma reunião. A camisola úmida às três da manhã. A menstruação que vem duas vezes no mesmo mês e depois some por três. Muitas mulheres atravessam essa fase achando que é estresse, cansaço ou coisa da idade, e que o único caminho é esperar passar.
No Brasil, a menopausa chega em média aos 48 anos, e as mudanças no ciclo começam por volta dos 46, segundo o Brazilian Menopause Study, que ouviu 1.500 mulheres de 45 a 65 anos em todas as regiões do país. Quase nove em cada dez relataram algum sintoma do climatério, mas só pouco mais da metade das que estavam nessa fase tinha recebido alguma prescrição médica.
O que é a menopausa, afinal?
É a última menstruação, e ela só é confirmada depois de 12 meses seguidos sem menstruar.
Os anos anteriores, quando o ciclo começa a mudar e os sintomas aparecem, formam a perimenopausa, também chamada de transição menopausal. Climatério é o nome do período inteiro, da transição aos anos que seguem a última menstruação.
A idade varia de mulher para mulher. Quando a menstruação para entre os 40 e os 45 anos, fala-se em menopausa precoce. Antes dos 40, o quadro tem outro nome, insuficiência ovariana prematura, e pede investigação e acompanhamento próprios, segundo a diretriz internacional publicada em 2024.
Quais são os sintomas mais comuns?
Os fogachos, as ondas de calor que sobem pelo peito e pelo rosto, e os suores noturnos são os mais conhecidos, mas estão longe de ser os únicos:
- ciclos que encurtam, se alongam ou mudam de fluxo;
- sono interrompido, muitas vezes pelos suores da madrugada;
- irritabilidade, ansiedade e oscilações de humor;
- dificuldade de concentração e esquecimentos do dia a dia;
- secura vaginal, ardor e dor na relação;
- vontade de urinar mais vezes e infecções urinárias que se repetem.
Os fogachos costumam durar mais do que se imagina. No estudo SWAN, que acompanhou mais de 3 mil mulheres nos Estados Unidos, as que tinham ondas de calor frequentes conviveram com elas por uma mediana de 7,4 anos.
Os sintomas genitais e urinários seguem outro ritmo: em vez de passar com o tempo, tendem a persistir e podem piorar nos anos seguintes.
Por que passar pela ginecologista nessa fase?
Porque vários desses sintomas têm mais de uma causa possível, e porque é nesta fase que a prevenção mais rende.
Um sangramento irregular pode ser da transição, mas também de pólipo, mioma ou alteração no endométrio. Cansaço e palpitação podem vir da tireoide. Na perimenopausa, a gravidez ainda é possível. Separar uma coisa da outra é trabalho de consulta.
Há também o que muda sem dar sinal. A perda de massa óssea se acelera nos anos seguintes à menopausa, e o risco cardiovascular aumenta durante a transição, segundo declaração científica da American Heart Association publicada em 2020. Pressão, colesterol, glicemia e ossos entram na conversa.
O que a consulta avalia?
O histórico e o que mais pesa no dia a dia vêm primeiro: sintomas, ciclo, sono, vida sexual, medicamentos em uso e histórico da família. A partir daí, a avaliação costuma incluir:
- pressão arterial, peso e medida da cintura;
- exame ginecológico e, quando indicada, ultrassonografia;
- rastreamento do câncer do colo do útero, que nas diretrizes brasileiras de 2025 passou a usar o teste de DNA-HPV, repetido a cada cinco anos quando o resultado é negativo, dos 25 aos 64 anos;
- mamografia, recomendada pelo Ministério da Saúde a cada dois anos dos 50 aos 74 anos, e que pode ser feita a partir dos 40, em decisão conjunta com a médica;
- densitometria óssea, indicada a partir dos 65 anos e, antes disso, quando há fatores de risco, como menopausa precoce;
- exames de sangue conforme o caso, como colesterol, glicemia e tireoide.
Depois dos 45 anos, a menopausa normalmente não precisa de exame de hormônio para ser confirmada. O diagnóstico é feito pela história, como orienta a diretriz britânica do NICE.
A terapia hormonal é segura?
Para a maioria das mulheres saudáveis com sintomas, com menos de 60 anos ou até dez anos depois da última menstruação, os benefícios superam os riscos, segundo o posicionamento de 2022 da Sociedade Norte-Americana de Menopausa.
É o tratamento mais eficaz para os fogachos e para os sintomas genitais, e ajuda a prevenir a perda óssea. Quando começa depois dos 60 anos ou após dez anos de menopausa, a balança fica menos favorável.
Ela não é indicada para quem teve câncer de mama, trombose, doença grave do fígado ou sangramento sem causa esclarecida, entre outras situações. O tipo de hormônio, a dose e a via, comprimido, gel ou adesivo, são escolhidos para cada mulher e revistos ao longo do tempo.
E quem não pode ou não quer usar hormônio?
Também tem opções com evidência.
Alguns medicamentos sem hormônio, usados com prescrição, reduzem a frequência dos fogachos. A terapia cognitivo-comportamental e a hipnose clínica têm recomendação formal para o mesmo fim. Para a secura vaginal, existem hidratantes, lubrificantes e estrogênio vaginal em dose baixa, que age no local.
Cápsulas de soja, fitoterápicos e suplementos vendidos para a menopausa não são recomendados para tratar os fogachos, segundo o posicionamento de 2023 da mesma sociedade, porque os estudos não mostram benefício consistente.
Ainda preciso de anticoncepcional?
Sim, até a menopausa ser confirmada.
Na perimenopausa a ovulação fica irregular, mas não desaparece. A diretriz britânica de 2023 sobre contracepção depois dos 40 orienta manter o método por dois anos sem menstruar quando a última menstruação acontece antes dos 50, e por um ano quando acontece depois. Aos 55 anos, a contracepção pode ser suspensa.
Alguns métodos cumprem mais de um papel nessa fase. O DIU hormonal, por exemplo, também reduz o sangramento aumentado, comum na transição. As demais opções estão na página de contracepção.
Quando marcar a consulta?
Sem esperar os sintomas ficarem insuportáveis. Em especial quando houver:
- qualquer sangramento depois de 12 meses sem menstruar, mesmo que pouco ou uma vez só;
- fogachos ou suores que atrapalham o sono, o trabalho ou a vida social;
- menstruação que parou antes dos 45 anos;
- secura, ardor ou dor na relação;
- infecção urinária que volta;
- ciclos muito curtos, fluxo intenso ou sangramento entre as menstruações;
- tristeza persistente, ansiedade ou insônia que não melhora;
- preventivo, mamografia ou outros exames atrasados.
Na consulta · Dra. Pollyane Lopes
O acompanhamento da mulher no climatério e na menopausa é feito pela Dra. Pollyane Almeida Lopes, médica ginecologista e obstetra, CRM MG 66466, RQE 44581, em consulta presencial no consultório em Boa Esperança, MG.
A consulta reúne o histórico, os sintomas, o exame ginecológico e os exames de rastreamento, e a conduta é conversada com a paciente: ajustes de rotina, tratamento sem hormônio, terapia hormonal quando indicada ou encaminhamento a outras especialidades quando o caso pede.
Perguntas frequentes
Exame de sangue confirma a menopausa?
Depois dos 45 anos, na maioria dos casos não é necessário. O diagnóstico é feito pela história de 12 meses sem menstruar e pelos sintomas. A dosagem de hormônios fica para situações específicas, como a suspeita de menopausa antes dos 40.
Quanto tempo duram os fogachos?
Varia muito. No estudo SWAN, a mediana foi de 7,4 anos entre as mulheres com ondas de calor frequentes, e uma parte delas conviveu com os fogachos por mais de dez anos. Há tratamento para reduzir a intensidade nesse período.
A terapia hormonal aumenta o risco de câncer de mama?
Depende do tipo de hormônio, da dose e do tempo de uso. Com a combinação de estrogênio e progestagênio, há um pequeno aumento de risco que cresce com o tempo de uso. Com estrogênio isolado, indicado para quem não tem útero, os grandes estudos não mostraram esse aumento.
Fitoterápicos e soja ajudam nos fogachos?
Os estudos não mostram benefício consistente, e o posicionamento de 2023 da Sociedade Norte-Americana de Menopausa não recomenda esses produtos para tratar as ondas de calor. Existem opções com evidência, com e sem hormônio.
Preciso continuar o preventivo depois da menopausa?
Sim, dentro da faixa de 25 a 64 anos. Com o teste de DNA-HPV, adotado nas diretrizes brasileiras de 2025, o exame é repetido a cada cinco anos quando o resultado é negativo.
Sangramento depois da menopausa é normal?
Não. Qualquer sangramento depois de 12 meses sem menstruar precisa de avaliação, mesmo que seja pouco ou aconteça uma vez só. Na maioria das vezes a causa é benigna, mas o endométrio precisa ser examinado.
Este artigo tem caráter informativo e não substitui a consulta. A indicação de exames e tratamentos é individual e depende da avaliação médica.
Fontes de referência: Pompei LM e colaboradores, Profile of Brazilian climacteric women: results from the Brazilian Menopause Study, Climacteric, 2022. Avis NE e colaboradores, Duration of menopausal vasomotor symptoms over the menopause transition, JAMA Internal Medicine, 2015. The North American Menopause Society, The 2022 hormone therapy position statement, Menopause, 2022. The North American Menopause Society, The 2023 nonhormone therapy position statement, Menopause, 2023. The North American Menopause Society, The 2020 genitourinary syndrome of menopause position statement, Menopause, 2020. El Khoudary SR e colaboradores, Menopause transition and cardiovascular disease risk: implications for timing of early prevention, a scientific statement from the American Heart Association, Circulation, 2020. Panay N e colaboradores, Evidence-based guideline: premature ovarian insufficiency, ESHRE, ASRM, CRE e IMS, Human Reproduction Open, 2024. National Institute for Health and Care Excellence, Menopause: identification and management (NG23), atualização de 2024. Faculty of Sexual and Reproductive Healthcare, Contraception for women aged over 40 years, 2023. Ministério da Saúde, Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero, Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 13, 2025. Ministério da Saúde, novas recomendações para o rastreamento do câncer de mama, setembro de 2025. US Preventive Services Task Force, Screening for osteoporosis to prevent fractures, 2025. American College of Obstetricians and Gynecologists, Committee Opinion nº 734, The role of transvaginal ultrasonography in evaluating the endometrium of women with postmenopausal bleeding, 2018.